A ausência do deputado federal Hugo Motta no evento também carrega um simbolismo que vai além da agenda ou de compromissos paralelos. Trata-se de uma decisão política cuidadosamente calculada e, sobretudo, institucionalmente coerente com o atual momento do Congresso Nacional. Como liderança da Câmara dos Deputados, Motta não poderia se colocar em uma posição que soasse contraditória em relação a uma decisão recente do Parlamento: a aprovação da PEC da dosimetria, medida que contou com amplo respaldo da Câmara, mas que enfrenta resistência direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, declarado contrário à proposta e já sinalizando veto.
Estar presente em um evento fortemente identificado com o campo progressista e com o entorno político do presidente, neste contexto específico, poderia ser interpretado como uma incoerência institucional, algo que Hugo Motta, experiente articulador e atento às liturgias do cargo, evitou deliberadamente. Mais do que um gesto de distanciamento ideológico, a ausência revela prudência e compromisso com o equilíbrio entre os Poderes.
Além disso, Motta mantém uma posição estratégica de não fechamento de portas. Embora dialogue com o governo e transite no campo do centro, ele sabe que sua força política — especialmente se pretender manter protagonismo na Câmara em uma eventual reeleição — depende também da capacidade de interlocução com setores da direita e do bolsonarismo, hoje ainda influentes no Parlamento. Comparecer ao evento, diante de todos esses simbolismos, poderia gerar ruídos desnecessários e comprometer essa construção.
Assim, a ausência de Hugo Motta não deve ser lida como omissão ou desinteresse, mas como um gesto calculado de coerência institucional, maturidade política e preservação de capital político — atributos indispensáveis para quem pretende seguir no comando dos grandes movimentos da Câmara dos Deputados.
